
Segundo uma notícia divulgada no UOL Notícias, um médico do Hospital Central de Wuhan, o oftalmologista Li Wenliang buscou alertar sobre a possibilidade epidêmica do Coronavírus.
De acordo com a notícia:
No início de janeiro, autoridades da cidade chinesa de Wuhan tentavam manter sob controle informações sobre o avanço do novo coronavírus. Quando um médico tentou fazer alertas a colegas sobre o surto, a polícia foi até sua casa e lhe ordenou a parar.
(…)Ele trabalhava no centro do surto de dezembro quando soube de sete casos de infecção por um vírus com sintomas semelhantes à Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), que matou mais de 700 pessoas no início dos anos 2000.
Em uma sequência de parágrafos adiante da notícia é dito o seguinte:
Quatro dias depois do alerta que fez aos colegas, ele recebeu em sua casa a visita de agentes do Escritório de Segurança Pública, que o obrigaram a assinar uma carta. No documento, ele era acusado de “divulgar informações falsas” que “causaram distúrbios graves à ordem social”.
“Nós o alertamos solenemente: se você continuar sendo teimoso, com essa impertinência, e mantiver sua atividade ilegal, será levado à Justiça. Está entendido?”. Abaixo, há uma declaração à mão de Li: “Sim, entendi”.
Ele foi uma das oito pessoas que a polícia investigou sob acusação de “espalhar boatos”.
Demonstrando seu total descaso sobre um assunto de extrema importância, as autoridades chinesas possibilitaram, se não causaram, a propagação do que pode ser mais uma epidemia de alcance e letalidade indescritíveis. Percebe-se, baseado nas informações disponíveis na notícia, que não houve qualquer investigação ou análise circunstancial por parte daqueles que de fato poderiam agir com alertas e fazendo uso de grupos especializados em medidas preventivas de saúde, vigilância sanitária ou mesmo com especialistas na área em questão. A medida tomada com imediatismo das autoridades foi, simples e diretamente, ordenar que “baixassem a poeira” sobre o assunto.
Em outro parágrafo, mostra-se novamente o descaso quanto a medidas de emergência.
Ao longo das primeiras semanas de janeiro, autoridades da China insistiam que apenas quem teve contato com animais infectados poderia ficar doente. Descartando, portanto, a possibilidade de transmissão de uma pessoa para outra.
Não havia nenhuma orientação para proteger as equipes de saúde.
Uma semana depois de receber visita da polícia, Li estava tratando uma mulher com glaucoma. Mas ele não sabia que a paciente estava infectada com o novo coronavírus e acabou doente também.
Na tentativa de justificar-se, o Comitê Central do Partido Comunista da China admitiu ter errado na resposta ao avanço da doença no país dizendo que “precisam melhorar o sistema nacional de gerenciamento de emergências e melhorar as habilidades em lidar com tarefas urgentes e perigosas”. A primeira melhoria que deveria ser feita seria não usar como a censura como método instantâneo e sem escrúpulos para “lidar” com situações sérias.
Em razão da triste e decepcionante notícia, o economista e apresentador de TV Ricardo Amorim pronunciou-se sobre o acontecimento numa postagem em suas redes sociais.
A China e suas contradições. Morreu ontem, infectado pelo coronavírus, o médico Li Wenliang, que fez o 1º alerta sobre o vírus e foi inicialmente repreendido pelas autoridades chinesas por isso. Segundo as primeiras reações das autoridades de Wuhan, ele – que estimulava a população e profissionais da área da Saúde a tomarem medidas preventivas para evitar a contaminação – “espalhava boatos e divulgou informações falsas que causaram distúrbios graves à ordem social”. Ele foi, inclusive, ameaçado de ser levado à Justiça caso continuasse com os alertas.
Se as autoridades tivessem apoiado e divulgado seus alertas, ao invés de reprimi-los, o surto provavelmente não teria tomado as proporções que tomou. É uma pena que um país com a capacidade técnica para construir um hospital em 9 dias tenha um regime político que vê e reage a um alerta médico como uma ameaça ao próprio regime.
Governos autoritários, não só na China, mas tendo neste momento como um exemplo maior, parecem flertar com ineficiência e descaso a cerca de temas de importância para o povo. Mas há um ponto ainda mais importante a ser notado: aqui temos um claro caso do problema de censura. Às vezes, a informação escandalosa, ou mesmo absurda, é verdadeira, e o método mais eficaz de encará-la não é cortando a língua de quem fala, mas sim pedir por esclarecimentos e considerar, sempre, ao menos uma pequena parcela de atenção real. Para todos aqueles que são favoráveis à censura de “fake news” e negacionismo, assim como se costuma pedir a procedência de informações conflituosas, que estes tenham a mínima condição moral de fazer o mesmo e provar com que fundamento faz-se tais acusações e promove medida tão radical. O preço a se pagar para ocultar o que é incômodo por ser caro, como a morte de centenas de milhares de pessoas.
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